A guerra no Irão está a impulsionar a procura por painéis solares e outras soluções de energia limpa na Europa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás natural continuam a subir devido à instabilidade no Médio Oriente.
O principal motivo prende-se com o receio de possíveis interrupções no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
A crescente instabilidade na região tem provocado uma forte subida dos preços da energia, levando famílias e empresas europeias a apostar em soluções que reduzam a dependência dos combustíveis fósseis.
Este contexto está a acelerar a procura por painéis solares, baterias e sistemas de autoconsumo em vários países europeus, incluindo Portugal.

Os efeitos desta tendência já começam a refletir-se em vários mercados europeus
- a Enpal registou um aumento de cerca de 30% na procura por painéis solares e bombas de calor;
- a 1KOMMA5° revelou que o interesse em sistemas solares quase duplicou nos últimos meses;
- no Reino Unido, a procura por soluções de energia solar cresceu mais de 60% durante algumas semanas de março.
A associação SolarPower Europe estima que a energia solar já esteja a permitir à Europa poupar mais de 100 milhões de euros por dia em importações de gás. Caso os preços elevados se mantenham, estas poupanças poderão atingir dezenas de milhares de milhões de euros em 2026.
Ao mesmo tempo, existem efeitos contraditórios:
- a procura por energias renováveis aumenta;
- mas os custos logísticos e dos componentes também sobem devido à instabilidade geopolítica e aos problemas nas cadeias de abastecimento.
Em resumo, o conflito está a funcionar como um acelerador da transição energética europeia: quanto mais voláteis se tornam o petróleo e o gás, maior é o interesse em painéis solares, baterias, bombas de calor e veículos elétricos.
Até que ponto o conflito no Irão afeta Portugal
Embora Portugal não dependa diretamente das importações de energia do Irão, continua exposto às variações dos mercados globais de petróleo e gás natural, sobretudo quando aumenta o risco de tensão militar no Estreito de Ormuz, verificando-se:
- forte pressão sobre o preço internacional do crude;
- tendência de subida dos custos da eletricidade nos mercados europeus;
- aumento da incerteza quanto à evolução das tarifas energéticas.
Impacto direto em:
- faturas domésticas;
- custos industriais;
- transportes;
- inflação energética.
Em Portugal, empresas do setor de energia renovável dizem que muitos clientes passaram a ver os painéis solares não apenas como uma solução ambiental, mas também como uma “garantia energética”.
Crescimento dos painéis solares em Portugal
A energia solar dispara em Portugal em três vertentes do autoconsumo
1. Habitações particulares
Este é atualmente o segmento com maior crescimento. Muitos proprietários estão a instalar sistemas de energia fotovoltaica entre 3 kWp e 6 kWp para:
- reduzir a fatura de eletricidade;
- carregar veículos elétricos;
- alimentar bombas de calor;
- aumentar a autonomia face à rede elétrica.
Atualmente, uma instalação residencial média pode custar aproximadamente:
- entre 4.500 € e 7.000 € para cerca de 5 kWp;
- podendo ultrapassar os 10.000 € quando inclui baterias.
Em Portugal, o retorno do investimento situa-se geralmente entre cinco e nove anos, beneficiando da elevada exposição solar.
2. Indústria e empresas
Pequenas fábricas, explorações agrícolas, supermercados e hotéis têm acelerado os projetos solares devido:
- aos custos energéticos, que afetam as margens;
- ao aumento dos preços da eletricidade nas horas de pico;
- à crescente pressão ESG e ambiental por parte de clientes e bancos.
O turismo e a agroindústria destacam-se em Portugal, uma vez que consomem mais energia durante o dia — exatamente quando os painéis geram eletricidade.
3. Sistemas com baterias
A guerra e a instabilidade nos mercados energéticos estão a aumentar o interesse por soluções de armazenamento doméstico.
As baterias permitem:
- utilizar energia solar durante a noite;
- reduzir a dependência da rede elétrica;
- proteger contra futuras subidas das tarifas elétricas.
Apesar de o retorno do investimento em baterias ser, em muitos casos, mais lento do que o obtido apenas com painéis solares, a procura continua a crescer, pois muitos consumidores valorizam mais a autonomia energética do que o ganho financeiro imediato.
A energia solar ganha um novo significado
No fundo, a guerra no Irão está a acelerar uma transformação que já estava em curso. O que se observa não é apenas uma reação momentânea à instabilidade no Médio Oriente, mas o reforço de uma tendência que vinha a ganhar força nos últimos anos.
Durante décadas, os painéis solares foram vistos sobretudo como uma escolha ambiental. Hoje, em Portugal e um pouco por toda a Europa, começam também a ser encarados como uma forma de estabilidade num contexto energético cada vez mais imprevisível.
Para muitas famílias e empresas, investir em energia solar já não significa apenas sustentabilidade. Representa também maior controlo sobre os custos da eletricidade, mais autonomia face à rede elétrica e alguma proteção perante a volatilidade dos mercados internacionais.